
Na medida em que não somos vidas encerradas mas ao contrário vasos comunicantes, toda a troca e contacto com os outros se cifra pela aprendizagem e aprofundamento do que intrinsecamente contemos: a sabedoria. Será esta, no fundo, a grande vantagem do ensino colectivo, visto dar a cada um a possibilidade de, por troca e intercâmbio com os outros, cada um se enriquecer de outras perspectivas que não apenas a sua.
Para isso será essencial duas coisas: abertura aos outros e pensamento reflexivo. A primeira por permitir que a experiência alheia se some à nossa, o segundo porque, sem ele, nenhuma troca ou evolução consciente é possível.
Presentes estes dois sinais, tudo se torna acessível àquele que busca o conhecimento; inexistentes, tudo se torna impossível para ele. Pelo que a grande batalha consista, no fundo e sobretudo, em se criar na nossa sensibilidade a maior área disponível, o menor número de barreiras, a compreensão dos outros e das diferenças que tal encerra.
Dharma é a lei: mas o que é a lei em si? Não apenas a regra de conduta a ter em conta, mas tudo o que a ela conduz e tudo quanto dela deriva. No fundo, Dharma é a totalidade das coisas existentes e os próprios princípios que presidiram à sua manifestação – Dharma é Deus.
E contendo Deus tudo, tudo está contido em Dharma. O que implica no paradoxo: pois se tudo está na lei como explicar que certos seres a possam transgredir e por isso sofrer? O que nos obriga a ultrapassar lei e punição (ou as ideias que delas temos), para vermos Dharma como aquilo que se transcende a si próprio.
Karma é o afastamento da lei: mas podemos de facto afastar-nos dela? Podemos afastar-nos de Deus? Podemos pensá-lo mas não podemos fazê-lo. Podemos cair na ilusão da separatividade, mas não podemos separar-nos uns dos outros, mesmo que o quiséssemos fazer. O grande problema de Karma reside na ilusão daquele que crê estar sob ela. No fundo, o problema de Karma é o problema do homem que se analisa e considera culpado – condenando-se.
Karma é inconsciência transformada em pena, em condenação. É auto-condenação, é auto-punição. Karma é coisa humana, é sensação de ter pecado, é sensação de estar distante de Deus e ignorar como tornar a Ele. Karma é expulsão do paraíso e é remorso.
Karma não é real: ou só é real para o homem. os deuses ignoram o Karma e os animais e tudo quanto é natural, também. Para Karma ser real teria de Dharma ser duas coisas distintas: lei e punição. Teria de Deus ser duplo: luz e trevas. Ora Deus não é duplo, Dharma não é duplo, Karma não é o oposto da lei – é a lei mais o sentimento de culpa daquele que o sente.
Consequência é como Dharma: é tudo e é natural. Tudo é consequência de Deus e Deus, por analogia, torna-se consequência de tudo. Deus é serpente que morde a própria cauda, é circulo encerrado sobre si próprio, é esfera no centro da qual tudo é quanto É.
Consequência não é algo separado e distinto, mas o motor de todas as coisas e as próprias coisas em si. Consequência é Deus que cria a vida; e vida que cria os seres; e seres que criam mundos; e mundos que manifestam arquétipos; e arquétipos que plasmam coisas; e coisas que são tudo; e tudo que é Deus visível e material.
Consequência é Dharma transformada em motor, é Dharma manifestada em todas as coisas, em todos os seres, em todos os acontecimentos. E é Karma para aquele que, condenando-se, age num contínuo de consequências.
Dharma, Karma e Consequência são uma só coisa vista de três maneiras diferentes: vontade, amor, e existência. São três coisas para aquele que as quer ver no plano da manifestação, são uma só coisa, ou principio, para aquele que está em sintonia com o divino.
No mundo das causas são uma só coisa: no mundo dos efeitos serão três coisas, ou aspectos da primeira e única. Em Deus são a unidade, nos mundos aparentes de Deus serão a multiplicidade.
Aquele que quer saber tem de ultrapassar o véu. Aquele que quer Ser tem de ser uno com tudo, tem de ser uno com Deus. Aquele que procura o conhecimento tem de aprender a separar o trigo do joio, a unidade da multiplicidade, a verdade da sua aparência, Deus e a sua sombra.
A sombra não é real, mas o resultado da matéria interposta entre a fonte de luz (Deus) e os corpos que ela banha, fazem-nos crer que sim. Para aquele que vive na ilusão a sombra é real, a multiplicidade das formas e dos conceitos também, a aparência do mundo e dos reflexos que nos cegam ou fascinam, não são discutíveis. Mas para aquele que sabe (porque feito de fé e consciência) só há uma verdade e esta é a unidade da parte no conjunto, ou é Deus reflectido em tudo.
Setúbal, 11 Abril 1989
JC
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