quinta-feira, 16 de junho de 2011

Magia




Viver em magia é viver em harmonia. É ser capaz de traçar o seu destino através do destino de todas as coisas, e é tornar-se numa unidade com todas as outras coisas – pois magia é unidade.

Para chegar a este planalto de onde tudo se descobre uno e múltiplo, é preciso ter esgotado uma certa forma de aparência que as coisas têm ou parecem ter. É preciso ter penetrado no seu âmago e ter visto nelas o nódulo essencial que as alimenta e que lhes confere realidade e vida.

Para isso é preciso sensibilidade. Não a sensibilidade do médium, que é de ordem inconsciente, mas a sensibilidade do mago, que é de ordem consciente. Como o poeta que, controlando-se controla a sua poesia. Ou o músico que, tendo ultrapassado a escala musical, alcançou uma nova escala de dimensão cósmica.

A sensibilidade do mago é coisa rara e única. Tão rara e única que nem se ensina (não há escolas de magos), nem se transmite (pela mesma razão). E quando se ensina, ou aparentemente se ensina, ensina-se apenas àqueles que já nasceram magos. Pois aqui, como na R+C, nasce-se para isto como lá se nasce para servir os outros.

Magia é integralidade – integralidade consciente e vivida. Onde tudo participa do mistério fundamental que é viver cada segundo em consciência acordada e plena. Pelo que cada coisa, ou ser, possui identidade própria e colectiva, de ordem magica e humana, transcendente e imanente – ou não fosse a sua essência múltipla.

Viver magicamente será então um dos degraus que lucidamente sobe aquele que quer alcançar a escala do uno e imutável senhor. Ou o último desses degraus pois que, galgado este, se penetra (assim dizem as crónicas antigas) num plano de realidade distinto deste.

Lisboa, 31 Outubro 1990
JC

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