
Estranho ouvir dizer que não há dinheiro. Sabendo-se, como se sabe, que o dinheiro é uma invenção. Ora sendo invenção, não se percebe como pode não haver uma coisa em que todos acreditam. Pode é dar-se o caso de haver pouco, sendo a solução fazer mais, pôr mais dígitos em circulação, e distribui-lo.
Na distribuição do símbolo dinheiro é que estará a dificuldade. Porque alguns se assumiram seus guardiães e agora não querem abrir mão desse encargo vitalício. Pelo contrário, querem que quem não o tem lhes peça, que lhes pague com juros, e que se submeta disciplinadamente a tudo que lhe seja exigido.
E isso continuaria a acontecer simplesmente porque é habito, não fosse a quebra de relação ter começado entre esses senhores e quem lhes pede. Mas havendo desconfiança mútua, romperam-se os elos de uma corrente que parecia eterna. Afinal, quem empresta quer lucrar cada dia mais, e quem pede quer pedir sem fim à vista nem preocupações de juros. O resultado é um conflito de interesses que não se vê onde vai terminar ou até se termina.
Por isso, quando oiço dizer que não há dinheiro para emprestar aos países que devem tanto que já lhes é difícil pagar, não os empréstimos mas os juros, começo a entender que esta invenção chamada dinheiro tem de mudar, sob pena de nos enterrar a todos.
Depois, entendo também que a falta de dinheiro para emprestar a quem quer ou precisa, não é tanto uma falta de liquidez, já que a garantia do dinheiro é tão abstracta como ele, sendo antes uma questão de ganância institucional ou de poder esgrimir com um poder absoluto.
Por ultimo, que será difícil chegar-se à vida gratuita enquanto se acreditar em lugares onde todos vão por e buscar dinheiro, cartões que se transformam em dinheiro vitalício desde que se pague para os ter, e senhores que mandam em toda a gente simplesmente por terem sido nomeados gestores.
Vejo gente a quem a corrupção não ofende a esgrimir com demagogia face à necessidade alheia, e espanto-me por andarmos todos a reboque de uma invenção que nos devia ajudar a trocar coisas em lugar de tomar posse das nossas vidas.
Mas tomou porque dentro de cada homem haverá um gestor havido de ter lucro. Tal como os que agora existem, os tais a quem ofende pensar num sistema em que ninguém tutele a vida. Talvez porque assim já ninguém lhes pedia emprestado, nem lhes pagava juros, nem os mantinha como deuses de um Olimpo falido.
E a haver dinheiro, tinha de ser assumido que era de todos e para todos usarem como símbolo, não como realidade que nunca foi nem pode ser. Coisa que bancos, governos, e instituições nacionais ou estrangeiras, se negam a abrir mão. Afinal vivem da mentira de serem necessários. Quando não são.
Necessário é o sustento de cada dia. É a liberdade de pensar e agir. É a possibilidade de comunicar com toda a gente. E é a consciência de cada um ficar serena para que, face aos desafios, seja capaz de os viver.
Perguntar-se-á como fazer isto sem dinheiro? Responderia que fazendo troca de bens sem os avaliar. Logo sem introduzir o factor lucro que é sempre uma avaliação subjectiva sobre um valor também ele subjectivo. Estendendo-se isto ao trabalho e sua remuneração. Mas também a todo o serviço emprestado, a toda a criação seja ela artística, intelectual, ou científica. Estando vedado a toda a gente a possibilidade de avaliar, mesmo que simbolicamente, o valor relativo ou absoluto, do que quer que fosse. Tanto mais que não se trocam bens, na verdade, mas vidas. E estas não têm preço.
Mas, a haver dinheiro, que se assuma desde logo a sua realidade virtual, para que não se caia, como se caiu, na tentação absurda de se dizer: isto é meu, aquilo é teu. Quando o certo é que nascemos, vivemos, e morremos todos no mesmo planeta, co-proprietários em regime de utilização colectiva, a ninguém cabendo deter uma parcela por mais pequena que ela seja. Ainda mais, como é hoje o caso, sendo tão grande que tem a capacidade de por em risco a sobrevivência da maioria, ditando as regras da quantidade de dinheiro circulante, do juro a cobrar a cada um, do limite do credito a conceder, e ainda, pior que tudo isso, da maior ou menor credibilidade daqueles que precisam de pedir.
É tão absurdo e ridículo este esquema que custa a entender o motivo porque continuamos todos a mantê-lo. Estando provado que a todos fere e a ninguém ajuda, aldrabando para se manter, confundindo para existir, dividindo para reinar, de tudo fazendo tábua rasa sejam valores ou pessoas.
Com tantos defeitos e tão perfeitamente claros e assumidos, só mesmo uma enorme loucura pode manter este sistema. Mas o ser humano, no seu amor insuficiente e projectivo, tem a rara capacidade de endeusar o que nada vale e de excluir o que lhe podia dar a vida. O dinheiro e seu abuso é apenas mais um sintoma.
20 de Maio de 2010
JC
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