É difícil o caminho daquele que quer chegar ao Mestre mantendo-se fiel ao mundo. É difícil porque os compromissos mundanos permanentemente destroem a sua consciência e o seduzem com promessas de felicidade e de bem-estar. E o discípulo, sensível como todos os homens, porque ainda não deixou de o ser, submerge nesse caos de sensações, por vezes agradáveis por vezes não tanto.
A luta pela sobrevivência económica afasta-o de outras opções. E porque é preciso manter a aparência de uma vida social, já que os outros o exigem, o discípulo cede à tentação de conciliar a cedência ao mundo com a obediência ao Mestre. Cede e virtualmente perde-se sem chegar ao fim.
Para viver no mundo e não lhe ceder no que é essencial, a preservação da alma, seria preciso estar livre, seria preciso estar de passagem. Esta consciência, que alguns seres parecem ter atingido, é rara mas possível. Buda teve-a, Cristo também. E desde então, muitos outros a tiveram: os santos, por exemplo. Tiveram-na porque para os santos o mais importante era servirem de canais entre o plano divino e o plano humano, era serem mediadores e através das suas vidas poderem demonstrar ao homem comum que havia outras possibilidades, outra forma, mais pura e mais livre, de viverem no mundo.
A maioria de nós pensa que viver no mundo é obedecer ao mundo, é obedecer àqueles que detêm a autoridade e que definem os padrões do pensamento político, social e económico. Na verdade não é assim. Se fosse assim não haveria mudança, porque aquilo que os patrões do mundo querem é que nada seja mudado. Toda a mudança é uma alteração da normalidade e toda a alteração da normalidade pode conduzir à perda do controle que exercem sobre as populações. Por isso eles são contrários a todos aqueles que tem visões diferentes do mundo, quer seja no campo da arte, da ciência ou da política. Mas o mundo é um ser vivo e como tal muda por acção de todos aqueles que o partilham. Então é um absurdo pensar que temos de obedecer àqueles que elegemos para administrarem o mundo. Não só não temos de obedecer, como devemos fazer o inverso: desobedecer.
Se os discípulos obedecessem aos ditadores do mundo, não haveria transformação, o mundo pararia e entrariam em colapso. Mas os discípulos obedecem a um princípio superior ao do mundo: obedecem às leis cósmicas da evolução, obedecem ao projecto dos Mestres.
Solstício Inverno, 2000
JC
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