quarta-feira, 1 de junho de 2011

Futuro ou nada




Há depois Portugal, mas também a Espanha, a Grécia, a Irlanda. Os tais que se afundam em quimeras de riqueza fácil. Vaidades de quem, tendo manias de grandeza, não soube ou não pode, equilibrar o défice das contas públicas (diria também das privadas) e ajusta-lo aos critérios comunitários. E daí esta incerteza.

Estranho esta incerteza. Tanto mais que a Europa, mãe extremosa, tudo faz para assegurar que nenhuma migalha se perca neste estrebuchar de modelos económicos, porventura sociais, enquanto o futuro permanece obscuro.

Vejo a Europa como uma galinha guardando os pintos. Poderia também vê-la como uma ave de rapina a quem as necessidades de liberdade ofendem. Mas prefiro, preferimos todos, vê-la inofensiva, suave no trato e na postura, maternal no que a maternidade tem de positivo. E por isso ceder-lhe, senão a confiança absoluta, pelo menos o beneficio da duvida.

Não que não haja (é humano que haja) galináceos escondidos espreitando a desatenção natural de quem tem de cuidar de muitos. Sendo estes uma espécie de correia de transmissão de interesses próprios ou alheios, senão à economia, pelo menos à ideia que a fez nascer. E daí a criação desse fundo comum para acudir aos mais necessitados, na verdade o começo de uma caridade sob falsos pretextos. Mas assumir claramente a falência de um sistema tem a dificuldade do orgulho.

Por detrás, sem ninguém perceber como mas todos sabendo porquê, o fantasma imenso de um capitalismo ruído. Na verdade devorado por vermes que se ocultam em todos, ou não fosse o mal alheio a realidade daquele que em nós não assumimos.

Há corrupção evidentemente. Há dinheiros públicos indevidamente utilizados. Há gestão danosa de recursos. Há sobretudo uma clara e assumida impunidade, que faz mossa no orgulho dos humildes, criando a ideia falsa de uma aproximação psicológica aos poderosos deste mundo.

Ocorre-me que estamos todos enganados. Não pelos outros mas por aquilo que teimamos acreditar possível: exploração sem desertificação, guerras sem vítimas, riqueza fácil sem pedintes, nem revolta, nem tristeza.

Inevitável é o descalabro desta economia feita sobre uma ideia absurda: de que é possível a alguns manipularem o que é de todos e para todos existe – o mundo.

Em lugar de assumirmos à nascença a verdade indesmentível de que se a vida nos consente é por ter meios para o fazer. Invertemos esta lógica e assumimos que são os modelos economicistas que devem prevalecer, ditando as regras do ter e do usar, como se o sistema inventado por alguns e mantido pela necessidade da troca de todos, devesse sobrepor-se ao direito à vida, à saúde, ao crescimento, à educação, e por aí fora…

Será preciso demonstrar que este capitalismo hoje caduco nasceu, não por obra e graça divina, mas porque foi necessário criar uma metodologia que facilitasse as trocas entre povos de outro modo incomunicáveis? E daí o seu sucesso absoluto.

A certeza da eficácia de uma ferramenta demonstra-se pelo seu uso. E quanto mais esta se aproxima do humano, mais útil se torna. O inverso é também verdade. E daí, por exemplo, esta dificuldade que a química moderna tem de criar saúde sem agredir. Dificuldade superável se, em lugar de procurar a substancia quimicamente mais pura, procurasse, sim, a mais abrangente e inofensiva. Retomaria então o caminho para o lado humano do rio e faria o milagre da saúde.

Mas à química moderna interessa, mais do que a saúde de todos, a ideia abstracta de realizar na matéria a sua alquimia. Ideia inteligente e profunda, herdada de assopradores e místicos que em tempos idos tentaram a aventura de recriar a obra divina.

Pois bem, ganhou a química a capacidade de gerir a doença em lugar de gerir a saúde. E misturando à ambição da transcendência da matéria, a de usufruir dos bens deste mundo, criou esses impérios farmacêuticos que hoje se misturam com os dos combustíveis, do armamento, da banca, dos seguros, e de outros muito mais obscuros, felizmente secretos para a maioria.

Também os senhores deste mundo, usando a necessidade da troca de bens e produtos, criaram entre si a ideia absurda de que lhes bastava lançar migalhas na praça pública para assegurar uma abastança intocável. E na verdade conseguiram. Não por mérito próprio, é preciso dize-lo, mas por cobiça colectiva. É esta, mais do que qualquer sistema por mais subversivo que seja, que mantém os poderes deste mundo intocados, inacessíveis, e pior, tornados ídolos edificantes quando na verdade mais não são que o absoluto da escroqueria.

É no descalabro dos valores que regem a sociedade humana que é preciso procurar os culpados. Não tanto, ainda que também, no seio das sociedades financeiras. Ou pior ainda, nas figuras sombrias que essas sociedades ocultam. Porque o capital, sendo abstracto na sua essência e por isso inacessível, é na verdade poderoso quando esgrime com bens imensos, livremente expostos por testas de ferro que se dão a conhecer ao mundo. Na verdade estes mais não são que os iscos envenenados que os mais ambiciosos procuram repetir. Desconhecendo, que nestes que idolatram, a única verdade é a inexistência do poder. Este existe, mas a um nível distinto: o do segredo.

Diz-se que foram os judeus (povo perseguido pelo seu excesso de usura hoje apenas pelos nossos remorsos tardios, mas antes tarde que nunca) que inventaram a sociedade anónima. A terem-no feito, fizeram a obra-prima do capitalismo.

Bem podem os pobres deste mundo atentar contra a fortaleza das sociedades financeiras herdeiras do feudalismo absoluto, que mais não conseguirão do que arranhar a superfície. E mesmo na loucura dos produtos fictícios, ficticiamente inflacionados, como aconteceu recentemente, mais não se vislumbra que a face visível de um império inatingível. É este o preço a pagar pela ocultação dos meios, mas sobretudo dos que mandam, nesta invenção chamada dinheiro.

Era preciso destrona-lo dentro de cada um que o acha mais importante que o deus que nos deu a vida, que a terra que nos suporta a todos, que a natureza que nos alimenta. Era preciso desnuda-lo dentro do coração do homem, desoculta-lo de falsas aparências, valores, realidades. Então, confrontados com a vacuidade que lhe esta na origem, talvez fossemos capazes de o usar com imensa precaução.

Ou então, inversamente, contribuir conscientemente para o uso e abuso desse senhor que só se mantém ditador por haver em cada ser uma sombra sua, um apelo seu. Faze-lo sabendo que na exorbitância do gasto supérfluo se abre caminho à sua queda. Inevitavelmente, à daqueles que o usam. E desse modo, abrir caminho a uma espécie de mutação colectiva capaz de criar uma escala de valores económicos mas também humanos, passíveis de gerir em equilíbrio os bens criados e consumidos por todos e para todos. Ou seja: uma planeta sustentável.

Este caminho, mais radical e decisivo que o de se tentar aqui e ali, conforme as crises obrigam, cozer pano novo em odres velhos, teria a seu favor (mas também em desprimor) a impossibilidade de recuar para a margem pseudo-segura das nossas esperanças numa burguesia há muito perdida de sentido. Obrigando-nos a dar o passo sem retorno.

Estamos capazes de tanto? É duvidoso! Tanto mais que albergamos, secretos e escondidos intentos de riqueza fácil, ou não fossemos, todos e cada um, mesmo os mais livres, herdeiros de uma sociedade de lazer, educados para o prazer, na verdade para o abuso dos recursos cada dia mais inexistentes.

Somos o que somos, e se mais não somos é por impossibilidade de o ser. Concretamente, heróis de pacotilha já que a outra heroicidade tem um preço. Mas também de guerras jogadas no íntimo onde os custos são comportáveis e a vaidade sofre menos. Do lado de fora, no confronto com esse mundo social cada dia mais escorregadio, é outra coisa. Aí hesitamos. Aí temos medo.

O medo, desde sempre encarado como coisa negativa, é afinal a garantia de que este mundo pode manter-se. Não como lugar da vida, talvez, mas como lugar de passagem ou de experiencias. Sobretudo estas, de onde a lógica pela negativa, de traumas, dores, insuficiências. E de uma morte sempre à espreita.

Não que não tenhamos esperança num mundo distinto. Temos! São os ecos do paraíso a dizer-nos que algures as sociedades ideais são possíveis, bastando andar para trás no tempo e regressar à inocência. Mas também abrir mão do consumismo, do ostentar da riqueza, sobretudo da ideia, certa ou errada, de que o planeta comporta uma sociedade de plástico para justificação de idealismos. Quando não comporta, nem pode. A menos que se esterilize.

Vejo dois mundos bem distintos, ambos previsíveis: o do triunfo das tecnologias e seus mitos, o maior dos quais será a felicidade globalizada; e o do triunfo da dimensão humana, bem mais pequeno, porventura bem mais frágil, mas sustentável.

Até agora temos tentado manter ambos, par a par, ligando-os por fios invisíveis que resultam das nossas necessidades e ideais. E aparentemente temos conseguido. Mas tudo tem um preço, e o nosso está-se a revelar demasiado.

Algures teremos de decidir, teremos de escolher. Talvez não já amanha, nem para a semana. Se calhar nem nessa mítica fronteira pela qual tantos esperam, o 2012 das profecias. Mas inevitavelmente teremos de abrir mão de alguma coisa.

E não o queremos fazer. Porquê? Porque os hábitos custam a morrer. Sobretudo quando tudo nos parecia possível. E chegar às estrelas ao mesmo tempo que desbravar a alma humana, a fronteira decisiva, o ultimo apelo.

Setúbal, 12 de Maio de 2010
JC

Sem comentários:

Enviar um comentário