
Na Grécia estrebucha-se. Em Espanha instala-se o receio. Em Portugal transferem-se responsabilidades e tenta-se tapar o sol com a peneira. É que nós navegamos à bolina. Já outros, só com a costa à vista.
Da Europa comunitária mantêm-se a ideia. De ser essencial a unidade de pensar e agir, sobretudo nesta economia que se degrada, que perde sentido. Tudo a bem da cidadania. Da segurança. Dos outros.
Mas conforme o tempo passa e o suporte de vida se estrangula, para gregos mas também para troianos, nasce a ideia de uma Europa a duas velocidades, ou qualidades: a dos que tem tanto que nem sabem o que lhe fazer; e a dos que tem menos, ou só os restos.
É o começo do fim. De um sonho pelo menos. O da igualdade monetária, financeira, talvez um dia política. Cultural também. Religiosa por inerência. Não que o passado seja o mesmo, mas tem o símbolo romano a gerar consensos. Pelo menos, nostalgias.
Pelo meio a certeza de não haver uma mas varias europas, muitas delas contrárias. Havendo primeiro a dos políticos, aliás sonho seu mais do que dos povos que ali habitam, e por isso impossibilidade sua, irrealidade sua.
Depois a dos interesses financeiros. A dos senhores que tomaram posse da terra, dos bens, das gentes. Que se acham donos das consciências à custa de empréstimos, de transferências, de cobiças geradas ou mantidas. Sobretudo do esgrimir da ambição de uma felicidade feita do ter sobre a ideia, ambígua é certo, do ser. Esta mais cultural e metafísica.
Finalmente a dos povos. Feita de hábitos de vida, de trocas culturais na verdade humanas, de cartões de credito na verdade debito, sendo sempre uma perda adiada de cidadania. Pelo meio a facilidade em andar de terra em terra sem licenças nem receios de não nos entenderem, aceitarem, quererem.
Para isto tudo se fez a Europa. Se criou, quase, um hino, uma linguagem comum a do dinheiro, uma ideia larvar mas persistente de um dia se erradicar essas míticas barreiras que separam povos, ideologias, credos. E de isso ser uma antecipação de um possível paraíso. Senão mítico, pelo menos cultural, tecnológico.
É tudo bom nesta Europa sem barreiras. De liberdades absolutas, quase, de dificuldades mais psicológicas que físicas e mesmo estas, circunstanciais. De mau apenas a ideia, insistente, de uns ganharem mais e outros menos, de uns terem o que a outros falta, de não ser tudo como se disse, como se quis, como se imaginou sequer, e por isso se fez este esboço de nação que nação não é. É antes, e acima de tudo, um bloqueio de instintos expansionistas, uma barreira contra uma hipotética mas a existir, terceira e definitiva guerra que seria inevitavelmente de extermínio. E por isso a evitar. Definitivamente.
Europa é sobretudo filosofia, mito. Não de um passado, mesmo que também, mas sobretudo de um futuro hipotético, de uma felicidade hipotética baseada num mercado alargado de contas de vidro que por brilharem sob o holofote das nossas esperanças, não damos conta que são afinal pechisbeque. Deram os negros, todavia, mas foi nos idos de 1600, nessas áfricas das histórias de gente corajosa, mercenária pelo menos.
Que fazer com esta ideia, necessária, ninguém discute, de um continente unido para viver, crescer, resgatar os próprios ou os outros desta imensa e inexorável miserabilidade que são as ideias curtas, as ideologias xenófobas, os egocentrismos caducos mas perigosos daqueles que esgrimem com o medo, sempre omnipotente, de uns e outros?
Obviamente construi-la. Mesmo que fazendo tábua rasa (se calhar fez-se) de diferenças por demais evidentes, fosse na forma de olhar o mundo, a vida, acima de tudo de a viver, como viver, porque motivo. O que levou, leva sempre, ao emergir das carências sejam estas ideológicas ou financeiras, acima de tudo financeiras, ou não fossemos, todos mas também cada um, um ser profundamente egoísta daqueles que olha para o lado a invejar o que o outro é suposto ter, seja a mulher, o carro, ou a promoção.
Agora é o descalabro de uma Grécia onde se pede a uns que cortem no que já não tem e a outros que se mantenham calmos, estáticos, a ver se a onda morre no regresso à praia. Sabendo-se que não morre, que suscita outras, maiores ou mais pequenas, que a propagarem-se mar dentro, na verdade Europa dentro, vão desencadear tsunamis de perigo incerto mas consciente.
Assim estamos cá em Portugal, em jeito de mudança, na verdade de incerteza, a ver em que param as modas e se os políticos a quem demos de bandeja o futuro, não o atraiçoam definitivamente. Antes nos mantém ignorantes mas pacientes, capazes de todos os sacrifícios, sobretudo o derradeiro de abrir mão de uma alma exangue, de um coração que perdeu o rumo ou nunca o teve.
Há depois o mundo. Seja negro, vermelho, ou amarelo. Na verdade mestiço, cinzento. No desespero mas também na mistura colorida dos sangues e das multidões que na fuga ao genocídio inventam fronteiras ou as derrubam, já que a vida é mais importante que a chacina. E curiosamente, resulta. Ou adia.
Vivem assim milhões. Oscilando ao sabor das guerras mas também dos interesses deste ou daquele, quase sempre do Ocidente que incapaz de se assumir como na época dos negreiros, o faz agora usando a correia de transmissão do capital incaracterístico.
Um dia, inevitavelmente, viveremos todos. Não porque a Europa faliu sob o peso das suas diferenças, mas porque não fomos capazes de entender que o planeta nos era pátria comum e por isso a única que valia a pena defender, salvaguardar, resguardar da usura.
Também e por inerência, que este habito de tirar a uns para dar em sobejo a outros, teria consequências. A pior das quais a generalização da fome, do medo, da doença. E que o esgrimir de uma esperança num futuro improvável teria a contrapartida de um mundo mais suave. O que nunca se viu acontecer e por isso a esperança morreu antes de nascer. Os povos com ela.
Por fim, que semeando a dor, só a dor poderíamos todos colher. Que separando era impossível unir, muito menos pessoas, iniciativas. Que cavando fossos fundos, muitos dos quais instintivos, era certo o abismo multiplicado, o pavor generalizado no dia seguinte.
Haverá regresso? Imprevisíveis somos quando, de costas voltadas uns para os outros, ensaiamos ainda assim voos de Ícaro a rasar um céu despido de milagres ou certezas. E no entanto não desistimos. Mas fazemo-lo sobretudo por teimosia. É que desistir seria regredir na historia, quem sabe no tempo, e regressar a essa caverna longínqua da qual todos temos a nostalgia ao mesmo tempo que o medo.
Por isso, nós à bolina num mar sem horizonte, outros a roçar a costa não vá o barco ganhar o gosto da liberdade, mantemos a Europa quem sabe o mundo como um pendão a meia haste. Sem certezas mas não querendo assumir que desistimos. Antes adiando até que deus queira. Até porque deus é afinal a única ideia colectiva.
Setúbal, 6 de Maio de 2010
JC
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