
JC:
Olá amiga, bons olhos a vejam
Marta:
Olá. Estive esta semana de férias
JC:
O milagre das fotografias é eternizarem a beleza. A sua torna-a eternamente bela, poética, desejável. A minha, se calhar o mesmo
Marta:
Obrigada, mas acho que não mereço tamanho elogio
JC:
Se pudéssemos fazer férias de nós mesmos e voltar com outra pessoa cá dentro, acho que valia a pena – mas voltamos sempre iguais
Marta:
É mesmo
JC:
Por isso, deixei de fazer ferias do trabalho (que cada dia é menor) e da cidade onde vivo (as outras são iguais ou parecidas) mas sobretudo dos amigos (não tenho assim tantos) e os que tenho são preciosos
Marta:
Eu também prescindia desses dias, mas como não me pagam para não fazer férias, faço-as, ou então trabalhava de borla
JC:
Pois: trabalhar mais de borla do que já fazemos acho um exagero. Porque o que ganhamos por trabalhar, alem de escravizar, manifestamente não compensa.
Eu sou um adepto convicto das ferias totais, do lazer absoluto, e de pormos as maquinas (ou os alemães) a trabalhar para nós, portugueses, poetas à solta, podermos vadiar, brincar, sonhar sobretudo
Marta:
E aí vêm os chineses para virem dar aulas de escravatura. Estamos entregues aos bichos...
JC:
E devolver ao mundo essa arte única e indispensável que é a capacidade de reinventar o mundo, a vida, a realidade – desta vez com as cores da alegria e da felicidade
Marta:
Tudo isso é muito lindo mas impraticável...
JC:
Coisa que nós, nos idos de 1500, fazíamos espontaneamente e que agora, pressionados pelos pecs e pelas contracções orçamentais, teremos de reinventar sob pena de qualquer dia estarmos mais depressivos do que os povos que nunca vêem o sol
Como os chineses ou os indianos que nascem, crescem, vivem, procriam, trabalham, e acabam por morrer, sempre presos nas suas gaiolas em fábricas de sapatos e outras parecidas.
Eu recuso-me, mesmo que morra de fome. Antes uma fome consciente e assumida por mim, que imposta a conta-gotas por essa canalha que nos tenta desgovernar e que graças ao nosso medo de não termos o que comer, vestir, e onde viver, vai conseguindo impor o seu regime de escravatura triste
Marta:
O problema não vai ser morrer de fome, que isso vai ser inevitável num futuro próximo, o problema é se não fizermos o que eles querem sujeitarmo-nos a levar uma bala na nuca como é hábito lá por essas bandas
JC:
Não nego a evidência da bala na nuca nem a repressão concreta ou discreta. Tampouco nego a manipulação das consciências que resulta da caridadezinha tipo Caritas e outras instituições de solidariedade social que mais não fazem que manter tudo na mesma, escamoteando o problema fundamental: os governos protegem o escravizador.
Marta:
E essas instituições comem à conta das desgraças dos outros
JC:
O que nego é o poder absoluto dessa gente decidir a minha vida, de a orientarem como lhes dá jeito, de me imporem os seus números fictícios, ou de me levarem a pactuar com os seus esquemas de má índole – e disto não abdico
Marta:
Nem eu
JC:
Não abdico da minha liberdade, mesmo que a sua manutenção me custe o futuro que, convenhamos, mesmo na escravização está seriamente comprometido.
Posto isto: que perdemos ao não alinhar? Rigorosamente nada! O dia seguinte? Mas o dia seguinte, avaliando por este, ou não existe ou vive-lo é a negação de tudo que o homem criou de belo, de bom, de justo. E por conseguinte, vive-lo nas condições que nos querem impor nada vale
Marta:
A lei deles é a lei do terror. Criar o medo seja ao que for para se manterem no poder. Medo dos "terroristas" do descontentamento dos "mercados" das minorias de vândalos etc.
JC:
Ontem entendi a lógica dos tais blindados para a PSP nesta coisa da cimeira: os ditos vem, não por causa da Nato (simples pretexto) mas por causa das revoltas populares (que eles já antecipam e bem) num futuro não muito distante. Ou seja: antes que a revolta estale (justa, ainda por cima) esta gente já se está armando para reprimir a população
Marta:
Claro! Que estavas à espera? Iam esperar sentados?
JC:
Entretanto, como sabe, entre eles multiplicam-se as iniciativas de dar cobertura aos amigos e compadres (que me perdoem os alentejanos para quem esta instituição é uma honra)
Marta:
Por isso é que eles não estão muito preocupados que os tais blindados cheguem mesmo depois da cimeira. São tolos não?
Os que já se encheram já saíram do país e os processos vão expirar e os outros vão-se defender de possíveis ataques "terroristas"...
JC:
Olhar de frente para a mentira de uns e a manipulação e abuso de outros tem, para mim, a capacidade de me imunizar contra essa gente e seus valores.
Talvez seja um exercício de liberdade inútil, este, mas foi o que ganhei. E por isso, andando para trás na nossa conversa, assumo a minha liberdade como o bem mais precioso e o único que nunca me poderão tirar
Marta:
Mas sabes, o que é mais grave é que o Cavaco vai ser eleito logo na 1ª volta. Quem se vai revoltar vai ser uma minoria porque o povo em geral parece que gosta de levar no focinho. Tem medo (não sei muito bem do quê)
JC:
Tem medo da liberdade: do que havia de ser? Porque ter liberdade é ter a responsabilidade de a tornar útil, de a colocar ao serviço dos outros, da vida, e isso é um grande problema
Marta:
É capaz de ser isso mesmo. Tens razão
JC:
Os homens (mesmo aqueles que a certa altura descobriram o exercício puro da sua liberdade) rapidamente se apressaram em criar sistemas de pensar e agir que, inevitavelmente, limitaram a liberdade ou a tornaram útil.
Desde então, ou desde sempre, outra coisa não temos feito que colocar limites à liberdade, que orientá-la de acordo com interesses sociais mais restritos ou mais livres, e hoje, ou sobretudo nos últimos séculos, estreitamos tanto a liberdade que a transformamos em escravização do trabalho, da vida, uns dos outros, cada um de si próprio, chegando ao ponto de vendermos a vida a troco de bens pecuniários. E nesse ponto da nossa caminhada estamos!
Marta:
Exacto
JC:
O futuro parece-me incerto, o que talvez tenha a vantagem de nos permitir reinventá-lo. Mas o mais certo é passar por demasiados momentos de revolta seguidos de repressão, senão assumida na ponta das tais espingardas, encapuçada em direitos fictícios e em subtis manipulações das consciências, o que vem a ser uma repressão bem mais triste e difícil de desmontar, mesmo para os mais atentos e informados
Marta:
1.º, que futuro? O que sinto é que caminhamos para a nossa destruição como espécie e talvez não seja assim tão mau, porque outros seres vivos virão e tudo voltará ao normal. Nós fomos um ataque de vírus a este planeta que em pouco tempo será aniquilado
JC:
Quanto aos outros, que hão-de eles fazer senão revoltarem-se conforme podem?
Marta:
Não merecemos este planeta
JC:
Talvez não! Talvez sim! A lógica da vida transcende-me! Em todo o caso, acho que a vida determina o seu próprio caminho e formas de realizar uma hipotética síntese de todos os opostos, sendo o nosso medo um dos ingredientes chave.
Se este medo nos vai consumir e consumir os recursos de inteligência e sensibilidade que entretanto fomos amealhando, ou não, não sei. Tudo é possível, até o impossível – acho eu
Marta:
Ao invés de aproveitarmos as nossas capacidades e conhecimentos para construirmos um mundo melhor para todos os seres vivos, utilizamos o conhecimento para a destruição. O que eu acho é que quanto mais conhecimento pior aproveitamento fazemos. Os outros animais com o conhecimento que têm nunca o utilizaram para a destruição da sua própria casa, o planeta. Nós, burros como somos, sujamos o nosso lar
JC:
E na curva remota de uma impossível liberdade, existe ainda a possibilidade de um dia ganharmos a coragem de sacudir o jugo dos que nos oprimem e realizarmos o milagre da felicidade. Porque, não tenhamos ilusões, foi para a felicidade que nascemos, pese embora que tudo que fazemos parece negá-la. Mas isso, mais uma vez, é por medo de sermos livres.
JC:
Estamos numa época de passagem. A sujidade do planeta é uma das consequências. Pior que essa, parece-me a das consciências. Entretanto, estamos a caminhar (espero) para um mundo mais limpo ou pelo menos mais consciente. Sendo impossível limpar o mundo sem que nos limpemos a nós próprios de todos esses excessos de consumismo.
Então, a grande revolução será, mais tarde ou mais cedo, realizar a nível humano a compreensão da sintonia indispensável entre planeta e humanidade, entre forças naturais e forças humanas.
Porque, se fazemos parte do planeta (e fazemos) ganhamos talvez o direito (e por isso também a responsabilidade) de cuidar dele, de velar pela sua continuidade.
Somos mais do que a soma de todas as criaturas: somos o passo seguinte na sua evolução. Somos a consciência (ou podemos ser) da sua totalidade.
Marta:
Vou ter que desligar. Havemos de falar mais, noutro dia. Vou tentar ser feliz dentro dos possíveis e desejo-te o mesmo. Tudo o que escreveste tem o meu acordo.
JC:
O que escreveste também tem o meu. Abraço amigo, e volta sempre
Marta:
Até breve
JC:
Ate sempre
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