quarta-feira, 1 de junho de 2011

Esta lógica da esperança



Num mundo que desaba, onde procurar o que nos sustem? Na esperança de, como num passo de magia, trocarmos as voltas ao destino e da derrota eminente fazermos o passo seguinte. E basta ter a esperança de o fazer para que, como numa espécie de contágio colectivo, outros adiram e assim se torne real aquilo que não o era.

Somos vasos comunicantes, eis a questão. E para bem ou mal, partilhamos esperanças e duvidas, sobretudo estas, a ponto de que aquilo que não existe se torne verdade, como esta ideia omnipotente do dinheiro poder governar a vida, sendo certo que é a vida que tudo governa. Mas acreditar que assim seja, é na verdade faze-lo. Por isso, e contra toda a lógica do possível, o deus dinheiro é hoje a realidade absoluta de quem em nada já crê.

Segue a banda ao compasso da loucura colectiva. Hoje, mais que deus é o compromisso financeiro que regula a taxa de esperança ou desespero. São os juros, arbitrariamente regulados, que fazem oscilar a felicidade ou a depressão que de humana se torna social, logo económica, e por consequência política. Entramos assim numa espécie de espiral descendente, onde a verdade jaz invertida, e o que conta é a incerteza.

Desde há muito que a crise se adivinhava. Inevitável era vive-la. Sofre-la. Para que deste modelo egocêntrico, reduzido à dimensão abismal do egoísmo, pudesse o homem ascender à visão abrangente da comunicação, logo da partilha. E na partilha realizar o começo da subida íngreme em direcção ao seu deus.

Passar de um lado para o outro do rio é que custa. Sobretudo para esses senhores detentores das chaves do futuro que habituados a jogar o jogo da esperança, tem agora a dificuldade acrescida de terem de abrir mão do poder e de assumirem a falência. Ou isso, ou a rotura. Mas eles insistem, teimam, e muitos dos que os servem, teimam também. Teimam sabendo que tudo está por um fio, e que das glórias passadas já só resta o milagre de ainda haver gente que acredite.

Exalta-se a imaginação que manda manter a ideia fixa de haver futuro para uma economia de ocultação. Ganha força a esperança de haver solução para roturas sucessivas, sejam pessoais ou colectivas, sociais ou espirituais. Impõe-se, ou tentam alguns impor, como solução derradeira, a ideia absurda de que basta ir sempre em frente para que o destino ceda. Quando o certo é que o destino, empurrado, só pode precipitar a queda.

Esta teimosia é-nos congénita. Trazemo-la da caverna sombria, esquecida há muito nalguma dependência do nosso inconsciente, e por isso incapazes de saber quando deter o gesto que a torne eterna. É que teimar contra o rochedo inamovível é na verdade quebrar as forças, poucas e incertas, e fazer do adversário aquilo que ele não é: um deus omnipotente.

Algures, numa curva da estrada, teremos de ir em frente. Não por cegueira ou recusa em ver o que é evidente, mas por decisão de saltar o muro que nos mantém inconscientes. E deste aparente fim fazer o impulso para um mundo mais ameno e uma vida mais sensível. Sobretudo, realizar essa esperança que moveu sábios e santos em direcção ao desconhecido.

Possa o divino, mesmo que vestido de carne, ou sobretudo vestido dela, ajudar-nos no entendimento do que a vida é se despida de malevolência. Possam os maiores de entre nós entender que só no estender da mão aos que hoje enganam e seduzem com falsas expectativas, haverá lugar para esse futuro colectivo. Não no exercício de um poder sem regras, mas no serviço aos que precisam. Não para esgrimir dinheiros em paraísos, mas na certeza de sanar a fome de bens e felicidade daqueles que tendo nascido tem por isso o direito à esperança.

Setúbal, 5 de Maio de 2010
JC

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