quarta-feira, 1 de junho de 2011

Inventar o mundo



Costumo pensar que um dia vamos todos acordar num mundo feito de valores em lugar de interesses. E que esse interesse maior, pai de todos os outros, a ideia de que alguém é dono de alguma coisa, terminou como terminam os sonhos, sabendo nós ao acordar que foi sonho apenas.

Depois, por consequência, que a ideia do lucro, que resulta da apropriação de bens, pessoas, e ideias, terminou também. Resolvendo-se assim os dois maiores problemas de todos nós.

Imagino a dificuldade de alguém pensar que aquilo que recebeu por herança ou compra na verdade não lhe pertence, antes pertence a todos, sendo ele um mero instrumento de gestão dessa posse colectiva. Tampouco lhe pertence o lucro que o uso desse bem lhe pode trazer. Antes pertence, na verdade, a todos que com ele partilham a vida.

E por imaginar a dificuldade dos outros é que não insisto demasiado na ideia, antes a mantenho como um tesouro a que de vez em quando vou buscar inspiração para falar da vida, de deus, sobretudo da felicidade. Sendo certo que tudo isso estaria disponível no momento em que abdicássemos do ter para o trocarmos pelo ser.

Como diria o amigo Agostinho: não somos nós que temos as coisas, são elas que nos tem. Assim é, e cada dia mais o confirmo neste nosso mundo de gente infeliz. A ponto de alguns viverem e fazerem viver em escravidão por amor à abstracção que vem do terem em lugar de partilharem, ou de se partilharem a si, descobrindo a liberdade do usufruir. Mas isso nasce do amor e são raros os que amam suficientemente.

Deveria bastar o sofrimento implícito no esforço para gerir e defender a posse do que se tem, para nos libertar dessa ideia levando-nos, imediatamente, pelo caminho da partilha, já que nela acontece a liberdade, o prazer, e sobretudo a felicidade que se multiplica.

Estranho cada dia mais esta nossa civilização baseada no abuso do possuir, na exibição absurda, na vaidade desmedida. E na cobiça alheia sobre o que se imagina que o outro tem, não se tendo em conta a dose de infelicidade, de cuidados dobrados, que isso traz.

Deve ser grande o medo daqueles que tem muito ou imaginam que tem. Esses, devem viver em casas armadilhadas, como antigamente se vivia rodeado de feras agressivas e guardas. Tudo na tentativa fútil de garantir uma segurança ilusória, quando bastaria dar aos que cobiçam o que temos, faze-los donos em co-propriedade, para que em lugar de termos inimigos tivéssemos amigos.

É a vaidade excessiva do rico que gera a cobiça do pobre e o leva, também ele, pelo caminho do possuir, julgando assim subir a escala do que se é, quando na verdade é descê-la e descer com ela.

Na ostentação dos poderosos vejo toda a miserabilidade do mundo, a sua insuficiência, o seu desvario, a sua incapacidade para gerar felicidade. E por consequência, antecipo a sua queda. Mas também, julgo, a antecipam os detentores do poder. Ou não teriam necessidade de se escudarem em leis arbitrárias, em governos corruptos, e em hábitos de possuir. Se o fazem é por medo.

Tivessem os pobres deste mundo a consciência de que a vida, ao lhes negar a propriedade, lhe deu a liberdade de nada possuírem. E com isso os colocou num estado independente onde a alma pode florir, o coração abrir-se aos outros e à vida, e tudo o que se faz ter o valor de ser genuíno.

Mas os pobres deste mundo vivem o mesmo processo de pensar, logo não usufruem do bem maior que a vida lhes deu: a liberdade. Nem contagiam outros, nem são exemplo que valha a pena seguir, nem, muito menos, demonstram aos poderosos deste mundo, que na verdade nada tem que valha a pena cobiçar, muito menos lutar para possuir.

Fossem os pobres ricos de vida íntima e os poderosos haviam de querer ser pobres para ser felizes. Mas pobres e ricos tem o mesmo receio: de não terem o que comer, nem vestir, nem onde se recolherem. E por isso lutam entre si pela inutilidade da posse exclusiva.

Vejo um mundo, não sei se passado se futuro, onde toda a posse foi destituída de sentido. Onde o mundo é agora um lugar calmo alheio à ideia da guerra por terras, bens, ou privilégios. É um mundo onde vale a pena viver, crescer, fazer outros crescer connosco, sabendo-se que toda a ideia ou acção, se digna de interesse, tem outros que lhe dão continuação. E desse modo a tornam colectiva.

Vejo um mundo sem medo, logo sem agressão. Sem gente a policiar o que outros fazem, por ser inútil e absurdo faze-lo. Antes ajudando-se uns aos outros, em todo o lugar sendo recebidos como amigos mesmo que ninguém se conheça, porque a curiosidade sobre o outro é agora mais importante que o receio em o conhecer.

Vejo um mundo que funciona como uma pequena aldeia. Onde as tarefas de cada dia são distribuídas ao amanhecer e porque são dadas e recebidas com prazer, a ninguém cansam nem esgotam a paciência, antes fazem crescer a alma e a imaginação. Sendo isso o maior bem.

Vejo um mundo onde a relação humana, em paralelo com a relação seja de que espécie for, se baseia já não na posse do outro mas no partilhar de sentimentos. Logo estável mas também, não o sendo, nem por isso aprisionante, já que a solidão se tornou um processo abolido, ou não fosse cada ser encarado como amigo e parte do que somos.

Não vejo indústria, excepto aquela que resulta da necessidade de fazer mais fácil o que existe. Mas é uma indústria reduzida ao imediato e ao lugar onde se cria.

Tampouco vejo comércio. E no entanto vejo toda a gente a trocar bens. Mas fazem-no por gosto, sem terem nisso a ideia do lucro.

Vejo grandes casas de uso colectivo. Construídas em comprimento sobretudo. Salas comuns a vários usos e pequenos dormitórios. Um pouco como os mosteiros antigos. Mas as portas estão abertas para quem as queira usar e ninguém pensa em fechar a sua à noite por medo.

Vejo gente que circula, que tem o gosto de viajar de terra em terra. São os vagabundos da cultura, sendo esta uma ferramenta do espírito, logo uma troca. Mas também outros que se fixam aqui ou ali, conforme o seu gosto pessoal, criando povoados permanentes, coabitados por outros que vão chegando ou partindo.

Não será um mundo preparado para a guerra com outros mundos. Nem capaz de andar a cavalo de naves espaciais a explorar riquezas aqui ou ali. Não é, de certeza, um mundo tecnológico. É antes uma espécie de mundo das fadas, magico por natureza, simples por opção, feliz porque os homens o quiseram assim.

Há outras possibilidades, mais próximas do que hoje somos. Espécie de pontes entre o nosso presente e um distante futuro. Mundos intermédios, de tecnologia não poluente, de medo desconhecido, de partilha assumida, de gente que planeia a vida, que antecipa o futuro.

São o que hoje somos, excluído tudo aquilo que nos perturbava. Há industria porque o homem gosta de criar tecnologia. Há comercio porque o homem gosta de trocar bens. Há cidades porque o homem precisa de lugares onde concentrar estruturas. E depois há lugares de paz, de bem-estar absoluto, de felicidade. Pequenas ilhas onde tudo foi concebido para o descanso do corpo e a renovação da alma.

Os transportes são colectivos. As casas também. Os bens estão disponíveis. As escolas são frequentadas por todos, porque todos querem aprender mais. Nas universidades pratica-se o conhecimento: são os lugares dedicados às ciências puras, à imaginação. Ali se desenvolvem as tecnologias, inventando-se o necessário à civilização.

A guerra é desconhecida. As línguas são estudadas pela curiosidade de terem existido. Há agora uma língua comum construída com base na matemática da comunicação e por isso simples mas abrangente, nomeando cada coisa, ser, ou função.

A gestão é feita por todos, para todos. Na prática, existe agora uma espécie de povos unidos onde cada um participa. O modo de o fazer é simples: usando a tecnologia que permite a comunicação em tempo real, dá a conhecer o que pensa para todos os outros saberem. E desse modo se instalou a plena democracia.

Sendo as decisões tomadas fruto do pensar e sentir de todos, deixou de haver decisões parciais, arbitrárias, ou incompletas. Já que é o saber colectivo que lhes está na base. E por serem colectivas, todos as assumem como suas, dando-lhes o melhor de si.

Este é um outro mundo igualmente possível. Mas a acontecer, é a antecâmara do outro. Porque um mundo que desistiu da infelicidade, acabará por se tornar um mundo simples, sem vaidades. Logo, um lugar de gente calma.

Não é por isso importante o modelo escolhido. Importante é que façamos a escolha contra a infelicidade colectiva. E o mais acontecerá.

17 de Maio de 2010
JC

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