
Nada vejo que impeça a vida gratuita a não ser, claro está, a dificuldade de todos de abrir mão do supérfluo. Melhor: de olharem em redor e perceberem que a ideia da abastança individual mais tarde ou mais cedo tem de ceder para a ideia da utilização colectiva.
É o egoísmo que tarda em manter a exiguidade de uma vida que podia ser de beleza, de grandeza, de partilha. Não as impossibilidades de uma natureza sempre pródiga, nem de um espaço de vida que afinal é de todos e para todos existe.
Proporia uma ideia: que à nascença cada ser fosse assumido como cidadão de pleno direito (estando os deveres incluídos) num mundo que também lhe pertence. Que a cada um fosse dado uma espécie de cartão de credito sem credito limitado, para que tudo o que lhe fosse necessário o pudesse ter. E que este cartão fosse vitalício, que o acompanhasse como uma espécie de garantia constitucional daquilo que no mundo lhe estava acessível.
Imagino que a haver um sistema destes ninguém contra ele atentaria. Nem haveria necessidade de esgrimir com o ter mais ou ter menos, dado que todos teriam o preciso, sendo isso o resultado da criação de todos para todos disponível. Nem haverias guerras ou crimes de lesa algo ou alguém, pois que no vácuo do possuir as necessidades de todos se poderiam exprimir.
E disto resultaria, quem sabe, uma espécie de frugalidade, já que a ninguém era necessário reter ou fazer stock de bens sempre disponíveis. O resultado seria um planeta saudável, auto-sustentável, capaz de gerar saúde em lugar de doença, riqueza em lugar de pobreza, espiritualidade em lugar de fugas mais ou menos padronizadas.
É quimérico pensar assim? Talvez! Mas o caminho que levamos ou nos há-de conduzir a um beco maior que aquele que já temos, passando pelo desvario das populações carentes logo violentas na manifestação do seu ressentimento; ou nos levará ao paraíso do consumo estatizado, organizado pelos mesmos que multiplicam o crédito, já que sem este ficam retidos os produtos e as fabricas e comércio paralisam.
Talvez pensemos que o dinheiro é uma realidade que se suporta a si própria. Não é. É a ideia que dele temos que o mantém como valor. Foi a lógica da comunicação entre os povos que o tornou importante. Foi a necessidade de transferir bens que lhe criou a oportunidade. Mas hoje, em que os países, mesmo os mais ricos, já não tem ouro armazenado na contrapartida da moeda circulante, e em que esta se transformou em informação digital facilmente circulável em ambiente informático capaz de percorrer o mundo sem nunca se deter, nem precisar, para manter o valor abstracto que sempre teve, é escusado insistir na ideia de que é necessária a cada cidadão a posse de uma parcela para ter direito a viver.
Ao contrário: a cada cidadão só é necessário que o sistema mude, que cada um aceite o direito do outro como igual ao seu, e que em lugar de lhe fechar a porta da oportunidade, lha abra. Então todos poderão ser companheiros de jornada, cabendo a cada um uma cota da responsabilidade colectiva que manda manter, multiplicar, e gerir, os bens que são de todos.
O importante era uma nova educação baseada não no ter mas no utilizar. Não no possuir com direito de exclusividade, mas no usufruir da criatividade colectiva para todos existente e disponível. O que levaria ao cume da criatividade, logo da comunicabilidade, por consequência ao da imprevisibilidade. Sendo o paraíso a consequência.
Tal educação é hoje uma imperiosa e urgente necessidade. Ou a exorbitância dos poderosos cavará um fosso tão profundo que até o mais sereno dos homens terá de pegar em armas para defender a legitimidade de existir. E isso é um preço que devíamos evitar. Tanto mais que é absolutamente inútil.
Com as fabricas cada dia mais automatizadas, e as que o não estão é por se querer manter gente ocupada temendo-se as consequências do ócio generalizado. Com a multiplicação da produção a roçar o supérfluo: o abate sazonal de milhares de modelos para manter a rotatividade dos stocks e as fábricas em plena laboração, são um bom exemplo. Com os bens alimentares e outros a serem destruídos ou oferecidos a instituições de caridade bem como a países do terceiro mundo para evitar o descalabro nos preços, quando o lógico era que só se produzisse o que era necessário. Que sentido faz não abrir mão deste capitalismo que a todos escraviza mesmo que a alguns com o excesso e a outros com a penúria?
É tempo de pensar colectivo. De ver o mundo como uma entidade. De assumir a humanidade como um só ser. E de fornecer a toda a gente o mesmo: liberdade, educação, alimentos. Responsabilizando todos na manutenção porque para todos existe.
Será preciso deslocar povos inteiros? Pois que se faça! Antes isso que as guerras fratricidas de sempre e para sempre. Pior ainda, a desertificação de países por falta de populações a contrastar com outros onde a pobreza das regiões e dos recursos não permite a sobrevivência.
Será necessário gerir a fertilidade? Porque não se isso contribuir para equilíbrios sociais e humanos? Tanto mais que, na gestão da capacidade procriativa começará, quem sabe, a gestão da prevenção das doenças. Abrindo isso caminho a uma era de saúde criada e mantida.
Será preciso ir às conservatórias dos registos prediais comerciais ou industriais e fechar-lhes o sentido que nunca tiveram, sendo sempre uma agressão ao direito de utilização de quem mais precisava, não tinha, e estiolava na sarjeta havendo outros que mantinham casas fechadas e fortunas em contas cifradas, tal o seu absurdo.
Mas também ir pelas cidades fora a encerrar milhões de estabelecimentos desnecessários, já que para o consumo consciente só é necessário um por quarteirão ou bloco habitacional ou vila e aldeia, podendo este ser uma espécie de armazém colectivo, onde por secções estejam todos os bens necessários à sobrevivência, sejam máquinas ferramentas, meios de transporte, vestuário, saúde, ou alimentos. Ficando desde logo disponíveis os que passavam a vida atrás de um balcão esperando horas a fio, às vezes vidas a fio, por clientes inexistentes, havendo assim mais gente para ser criativa e menos tédio a lamentar.
Será preciso imaginar ou escolher uma língua única em detrimento de todas as outras? Pois claro que sim! Mas, mais uma vez, se isso for a solução para a comunicação de todos, que preço tão pequeno, que ganho tão imenso!
Língua que até pode ser sorteada à sorte, numa espécie de roleta onde estejam representadas todas as línguas. Porque o que importa não é o enaltecimento desta ou daquela mas a escolha em fazer a humanidade comunicar e entender-se.
Não havendo necessidade, nem tendo lógica faze-lo, deixar cair no esquecimento línguas próprias assim como culturas que se tornaram nobres de tanto criarem. Havendo, isso sim, a possibilidade de todos as estudarem, enriquecendo a vida própria mas também o imaginário colectivo.
Será preciso dissolver partidos, parlamentos, governos locais ou mais ou menos globais? Provavelmente será! Mas toda essa gente terá a oportunidade de renascer, de fazer coisas em que nunca pensaram, sobretudo em trabalharem não para o grupo reduzido dos seus pares ou amigos, mas para a totalidade dos seres.
Inversamente, será necessário conferir poderes adicionais às estruturas internacionais, dando-lhes a dimensão que nunca tiveram de representação e gestão. Pois bem, que se faça. Já que isso corta a direito com interesses particulares ou nacionalistas, e abre caminho a uma mundialização dos povos, das economias, sobretudo das reais necessidades. E torna inúteis os grupos de pressão, os lóbis deste ou daquele interesse específico.
Modelos de gestão há tantos que é só escolher. Sendo lógico pedir a todos que são criativos que se façam pares uns dos outros para bem de toda a gente. Simultaneamente que se cresça para uma gestão inteligente e globalizada, já que a globalização da comunicação o permite instantaneamente. Sendo possível antecipar uma época futura em que qualquer decisão que afecte a maioria, por todos seja decidida. Sendo isso a autentica democracia.
Escusado será dizer que os gastos astronómicos e desde sempre encarados como vitalícios com a guerra e suas ficções, cessaria por obsoleto, já que os povos em lugar de se guerrearem por interesses duvidosos passariam a trabalhar em conjunto na solução de problemas agora comuns.
Só a poupança gerada pela inutilidade dos conflitos, mais os armamentos e por arrastamento os milhões de homens deles dependentes, é por si só capaz de pagar a sobrevivência de todo o planeta e suas gentes.
Depois, por se juntarem os recursos de um planeta, a exploração do espaço tornada possível. E daí, um imenso desenvolvimento, não na ideia de competir contra uns e outros (pecado imenso de orgulho) mas na certeza de que, algures espaço fora, outros povos existirão com quem vale a pena trocar ideias e experiencias.
Mas também, juntando recursos dispersos, explorar mares profundos, lugares hoje inóspitos e de impossível habitação, mas que, tal como à superfície, um dia poderão conhecer outras lógicas de utilização. Quem sabe mesmo, prover à sobrevivência humana por excesso de gente.
Um mundo bem distinto pode surgir deste que nos habituamos a considerar eterno na lógica das estruturas, quando estas mais não são do que o resultado da maior ou menor capacidade criativa.
Sendo verdade que é altura de mudar para geral o que é hoje sectorial, para mundial o que é apenas nacional, e para bem de todos o que agora só pertence a meia dúzia. A consegui-lo, salvamos o planeta e a nós também. Não o conseguindo, adiamos e sofremos.
É possível que esta ideia não tenha ainda cabimento. Que tenhamos de ir lentamente pelo caminho do cartão de credito, gradualmente de credito ilimitado porque impossível de cobrar, até à generalização do credito em paridade com a cidadania.
O mesmo para os povos que andam de um lado para o outro em busca de lugar para viver, o que torna abstractas as fronteiras senão mesmo as línguas, os países, as soberanias.
Outro tanto para os povos geridos arbitrariamente através de regimes pseudo-democraticos onde o voto faz o sentido de legitimar o direito à governação, quando na verdade é o capital que manda que subsidia, que põe e dispõe, que decide.
Por fim, para as estruturas de ensino, de educação, de investigação, de cultura. Mas aí a coisa é mais fácil porque esta gente há muito se afastou da ideia redutora de um mundo estreito fechado na ideia de países.
Talvez tenhamos de esperar que as coisas tombem sob o peso excessivo de estruturas tornadas eternas pelos hábitos não pelas necessidades. Talvez precisemos de mais estertores desta natureza castigada até à rotura que, manifestando-se, a todos pode por em perigo mas não maior do que aquele que todos criamos. Talvez tenhamos de aguardar para que o divórcio entre as multidões e os governantes seja um facto indesmentível, facilmente demonstrável nas eleições vazias.
Às cidades ciclópicas da actualidade só pode esperar a queda, a menos que o mundo se torne uma cidade ciclópica feita da fusão de todas as que existem. O que é sempre uma possibilidade a ter em conta. Mas se assim não for, e não será se tivermos alguma réstia de normalidade, então é inevitável a sua queda. Logo a de tudo aquilo que lhes esteve na origem. Por inerência uma certa forma de pensar. A queda das cidades ciclópicas é na verdade a queda de todo um modelo de civilização: o da massificação.
Também aos gigantes com pés de barro deste nosso mundo, ocultem-se onde se ocultarem e lancem as cortinas de fumo que lançarem, mais tarde ou mais cedo ficarão reduzidos à sua própria exiguidade. Logo ao desaparecimento. Por inerência, ao nosso esquecimento.
Ao sistema corrupto e larvar que suporta tudo isto só pode acontecer o mesmo. Durará, claro, aquilo que o nosso medo durar. Mas também o medo de não ter, ou de precisarmos de quem nos tutele a vida e o pensamento, tem o seu tempo próprio. Depois cessa. Ou cessamos nós de o acreditar. Não importa!
Gosto de pensar que os desmandos do poder são sempre o sinal inequívoco da sua fragilidade, e que só temos de aguardar serenamente por eles para nada fazer que detenha a ruptura eminente. Depois é só ir em busca daqueles que querem construir um mundo novo feito de novas premissas.
A ser assim, este sistema feudal de que governos e oposição se servem para resistir à necessidade de mudar o que não presta, tem os dias contados. E não foi preciso fazer guerras ao dinheiro nem andar por aí a escavacar bens deste e daquele. Foi só entrar no carrossel do consumismo desenfreado, do egoísmo globalizado, e do apetite desmedido e sem freio que tendo o exemplo nos grandes deste mundo, só podia, como fez, criar discípulos sem fim em todas as classes de gente.
Pois bem, é aqui que nos encontramos. E daqui só sairemos através de uma grande convulsão. Que ela virá é só uma questão de tempo.
Setúbal, 13 de Maio de 2010
JC
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