
O ocultismo do século 19 teve um grande defeito: tentou organizar o mundo e esclarecer todas as dúvidas. Para compreender esta necessidade é preciso perceber a mentalidade dessa época: racional, fechada sobre si, convencida de que tinha alcançado o topo do saber.
É famosa a história (verídica) do encerramento do registo de patentes: é que já se tinha inventado tudo. Mais tarde percebeu-se que não e que a maquina a vapor era afinal o começo de um caminho sem retorno. É também conhecida a ideia de que nenhum corpo mais pesado do que o ar poderia voar. Esquecendo-se, quem o disse, de que os pássaros voam. Agora todos voamos e já ninguém pensa nisso.
A uma mentalidade tão fechada tinha de corresponder um grande orgulho e simultaneamente um grande medo. Como consequência do orgulho veio a guerra, como consequência do medo veio a desconfiança dos outros e mais tarde o início dos grandes movimentos de reforma social.
No plano do ocultismo veio a ideia de tapar os buracos deixados pela gnose e pelos fragmentos dispersos do Rosacrucianismo, da Alquimia, do Templarismo, da Maçonaria. A primeira ferramenta de que o ocultismo lançou mão foi a experimentação, nisto se assumindo cientifica. O que deu origem ao fenómeno do Espiritismo e da Parapsicologia.
Com o Espiritismo veio a racionalização dos mundos subtis, das relações entre almas encarnadas e desencarnadas, a teoria da evolução, a classificação dos mundos e dos corpos e por consequência das leis que tudo fazia existir. Foi uma época de certezas e deixou-nos um legado que ainda agora, já não racionais nem mecânicos, continuamos seguindo e mantendo.
Antes do século 19 havia ocultismo mas era diferente: havia alquimia para os práticos da pedra filosofal e teórica para os adeptos da transformação espiritual; havia magia, sobretudo negra ou vermelha; havia cabala e através desta o estudo dos livros bíblicos; havia Rosacrucianismo e através deste uma mistura de tradição cristã com paganismo; havia gnose e por isso o estudo dos clássicos gregos.
Havia tudo mas nada organizado no estilo enciclopédia a que os grupos do século 19 nos habituaram. E sobretudo não havia resposta definitiva para os grandes mistérios, mesmo que cada tradição ou grupo afirmasse a sua parte de verdade e tentasse a seu modo responder.
Depois aconteceu Blavatsky e essa enxurrada de teorias estranhas ao Ocidente. E como consequência de Blavatsky e do Hinduísmo, aconteceu a organização do ocultismo ocidental e uma espécie de guerra de bastidores para manter coeso e inalterável o propósito (ou aquilo que se acreditava ser o propósito) das tradições ditas ocidentais.
Ninguém estava preparado para Blavatsky e a resposta foi confusa e incoerente. O ocultismo ocidental tinha sido druida, grego, romano, cristão também. Mas era feito de fragmentos e não tinha nem a complexidade nem a dimensão nem a resposta que a Teosofia tinha.
De repente acordados, postas em causa certezas profundas, organizaram-se os defensores da tradição do ocidente como se houvesse na verdade algo a defender. Ressurgiu a R+C, a Maçonaria (agora mais especulativa ou filosófica), o Martinismo, alguns tipos de Templarismo, a Alquimia, a Cabala. E autores, sobretudo franceses (Levi, Papus, Guaita, Peladan), mas também ingleses (Yeats, Crowley, Lytton) e alemães (estes mais místicos e nacionalistas).
O esforço resultou, e aquilo que começou de forma incoerente acabou por criar raízes e por assumir contornos de movimento filosófico permanente. Assim desembocou em homens como Heindel, Stainer, Hesse, Lewis. E através destes chegou aos nossos dias.
Agora estamos vivendo um paradoxo e vamos ter de fazer opções: ou esse ocultismo paternalista a que nos habituaram ou o desbravar de outras e diversas dimensões. Apanhados na curva da história, com um pé no desconhecido e outro em aparentes certezas, ainda não sabemos o que fazer. Os melhores de entre nós hesitam: conscientes de que a verdade é, como disse magistralmente Krishnamurti, “um país sem caminhos”, tem dificuldade em hipotecar o futuro aos seus e nossos receios.
Paralelamente proliferam as ideias pessoais e misturam-se as teorias que vão dos ovnis à espiritualidade, da busca do Graal à magia, dos cultos afro-americanos à esperança messiânica num salvador que nos redima. Misturam-se as ideias e assiste-se ao aparecimento de grupos cuja desorientação espelha a da própria época em que vivemos.
Época perigosa pela diversidade da oferta de ideologias, mas sobretudo pela forma simplista com que as queremos viver. E somos tentados, mesmo os melhores de entre nós, a viver à margem da consciência e a adoptar poses que em nada nos ajudam a reencontrar o fio da meada que algures no século 19 se perdeu.
Amarna, Verão de 2003
JC
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